Não se assuste, pessoa

Daniel Johnston

Estou de passagem por Curitiba e resolvo mandar mensagem. Você espera por mim em frente ao prédio errado, não nos vemos há 7 anos. Está com sacolas nas mãos, voltando do supermercado, me ofereço para carregá-las. Você e eu tivemos um namoro virtual quando tínhamos 16 em uma rede social que não vale a pena mencionar mas que começa com O e termina com T. Você morava no interior e eu na costa. Foi o que alguns chamariam de primeiro amor, mas quanto a isso você diria que não sabe ao certo, já que qualquer experiência subjetiva costumava te causar mais confusão do que certeza. Como dores de cabeça: quando você era pequena vivia ouvindo seu pai reclamar de dores de cabeça, o que te deixava angustiada pois você acreditava que nunca havia sentido aquilo, e se nunca havia sentido como poderia identificar caso um dia sentisse? A ideia de sentir dores constantes na cabeça, marteladas e compressões continuas e ritmadas como se seguissem uma partitura era aterrador. Nesse sentido, amor e dor de cabeça são as mesmas coisas para você.

Carrego suas compras ao seu lado até sua casa em meio as antigas arquiteturas e mendigos no centro de Curitiba, é um dia gelado de sol. Após poucos minutos de caminhada você começa a desconfiar de que não havia desligado o fogão que esquentava a chaleira antes de sair e começa a ficar assustada com a possibilidade de ter posto fogo na casa, ou algo que o valha. Apressamos os passos. Quando namorávamos nos encontramos pouquíssimas vezes, a primeira em Curitiba, depois Santos e São Paulo, ou vice-versa. Naquela idade você já parecia saber de tudo, gostava de ler, tinha um pai professor de biologia e poeta, tinha sardas e cabelo dourado e ondulado, e a ponta do seu nariz se mexia conforme sua fala. Em um banco de shopping em Santos você me explicou quem era Simonal, Laranja Mecânica já era seu filme favorito e já mostrava traços de certa consciência política. Você sempre me fazia sentir como um ser inferior, um sub adolescente. No caminho tento tirar sua preocupação com o suposto incêndio fazendo perguntas cretinas. “O que você está lendo?” “Sobre o que é seu TCC?” “Como vai seu irmão?”

Depois da pequena desventura virtual adolescente você foi morar definitivamente em Curitiba quando passou na faculdade. Eu saí da costa e fui para o interior de São Paulo, por ironia do destino. Durante a faculdade voltamos a nos ver em Bauru. Você disse que estaria lá no fim do ano com sua irmã para visitar sua mãe. Me convidou para ir no bar com um grupo que constituía sua irmã, sua meia-irmã mais velha e o namorado da meia-irmã mais amigos. O bar era uma casa com pouca luz que tocava músicas obscuras da MPB, vendia discos de vinil e latinhas de tinta para artes em murais, e tinha um espaço aberto nos fundos, havia uma atmosfera de república nele, facilmente identificável em qualquer esquina de Bauru. As pessoas dançavam no meio do salão, borrões de luzes e cabelos, saias floridas e sandálias, latinhas vermelhas e brancas nas mãos, ombros se esbarrando, fumaça, mesas e cadeiras ao redor, máquina de fliperama, sorrisos pro nada, o balconista sempre ocupado. “Não se assuste pessoa, se eu lhe falar que a vida é boa, enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir…”. A essa altura eu já estava agindo conforme a sua gravidade sem nem perceber. Como um corpo menor atraído pela gravidade de um corpo maior, não como a lua mas sim como um lixo espacial pego pela tangência de sua atmosfera.

Enquanto andamos com passos apressados pelo centro, minhas mãos começam a mudar de cor como um arco íris: sai do amarelo, passa para o vermelho, roxo e agora azul e depois volta para o amarelo por causa do peso das sacolas. E arde. E você diz que já estamos chegando. Você me pergunta, “lembra da dor de raspar o ossinho do tornozelo na roda da corrente daquela bicicleta Caloi berlineta cor de laranja?”

— Não sei bem o que é uma berlineta. – Eu digo.

— Você me disse uma vez.

— Você deve estar se confundindo.

— Sim. – Você diz. – É nesse prédio.

É um prédio baixo amarelo. A porta é aberta por uma fechadura na parede e digo nunca ter visto antes algo assim. Você ergue a cabeça tentando farejar algo.

Depois do bar naquele dia em Bauru, saímos e fomos para o apartamento de um dos amigos de sua meia-irmã, compramos mais cerveja, continuamos bebendo na sala enquanto a banda Cake tocava na TV, um álbum amarelo com uma coroa vermelha no centro. Enquanto alguns do grupo discutiam algo incompreensível entre si, você e sua meia-irmã estavam tendo uma conversa emotiva sobre o pai. Você comentou algo sobre o fato dele ser bi e sobre uma foto que havia dele com outro homem que poderia ser seu namorado nos anos 70, na verdade apenas sua meia-irmã estava emotiva. Você mantinha seu olhar imperturbável. “Você sabe que meu pai morreu de câncer, né?”, você me perguntou.

— Não. – Respondi.

— Pois é. – Você disse.

— Às vezes é bom fazer uma viagem na companhia de um parente morto ao menos uma vez na vida.

Eu disse e não sei porque disse isso.

Agora você me olhava emotiva:

— Isso me lembra um livro… Enquanto Agonizo. Se você pudesse se desfazer no tempo. Seria agradável. Seria agradável se a gente pudesse se desfazer no tempo. Já leu?

Entramos no prédio, você corre na minha frente. Deixo as compras em cima da mesa, você sai da cozinha como quem termina uma prova, aliviada. Não havia nada ligado. Você aproveita para me mostrar a casa onde moram mais três. Percebo algumas garrafas pet cheias de bituca, mas você não é a fumante. Você me mostra seu quarto. Há um poema escrito na parede, mas não o guardo. Depois penso que poderia ser algo do seu pai poeta. Deram-me rosas…Não soube o que fazer com as rosas! Nunca mais me deram rosas. Mas não é esse, é algo maior. Tiramos o tênis e sentamos no sofá. “O que estamos fazendo?”, pergunto. “Não sei, mas parece certo.” Você diz. Aquilo me tranquiliza. “Adivinha da onde é esse”, você diz apontando para um cartão postal com a imagem de Tintin e seu cachorro Milu na parede, cheia de outros cartões postais. “Essa é fácil. Bélgica, o Hergé era da Bélgica”. Depois seguro seu maxilar porque quero sentir o formato do seu rosto nas minhas mãos, talvez já suspeitando que seria a última vez. “Eu sei que você é sensível”, você diz certo momento, talvez como uma forma de lamento já antevendo tudo que aconteceria nos próximos dias.

praticamente um fantasma.

praticamente um fantasma. gumopolis.tumblr.com