Acidentes infelizes

Sempre tive dificuldades para dormir. Desde pequeno.

Me enfiava entre meus pais durante a noite, em um sanduíche familiar, e assistia Cartoon Network na TV de cubo presa no alto da parede, até os olhos pesarem. Hoje em dia não é diferente, mas troquei os cartoons pelos livros, fico até altas horas da madrugada com um livro na mão até não aguentar mais. Me refugio nas palavras, busco o desconforto nelas. Não suporto quem busca conforto em livros, gosto que eles me tirem do lugar. Uma escoliose literária. Mas hoje não. Hoje é um dia fora do comum dos meus dias, penso o que se passa pela sua cabeça agora, será que sonha? Será que pensa na diferença de oito anos que temos? Você sendo a mais velha? Eu penso, mas nunca tocamos nesse assunto, como se fosse algum segredo que uma vez desvendado a magia toda se esvai. Penso que quando você nasceu eu inexistia, não era nada, fui um nada durante oito anos da sua vida. É o que eu penso, dia e noite. Na diferença. Nas nossas diferenças. Para começar, sua disposição para a poligamia. Sou um homem antiquado, obsessivo, nascido no tempo errado, ou no corpo errado. Talvez nenhum tempo seja adequado pra mim, porque é da minha natureza ser nostálgico, o que faz com que qualquer presente seja sempre sufocante. E como alguém obsessivo e controlador, jamais poderia conceber a noção de poligamia, porque quero tudo para mim.

Agora, quando vejo você respirar o ar de Morfeu, uma respiração lenta e espaçada, me dou conta de que você é um animal, um ser vivo, e penso na origem de tudo, e como todo o universo conspirou para estarmos vivos, gerações após gerações, acidentes felizes atrás de acidentes infelizes, desde que um peixe resolveu pular para a terra, e o macaco usar ferramentas, o que nos levou até esse quarto desconhecido em que você dorme enquanto eu assisto, como um filme francês monótono da nouvelle vague. Penso em toda a probabilidade, e se fosse um matemático, com certeza estaria louco agora fazendo contas em fórmulas que se pareceriam mais com hieróglifos em lousas gigantes e giz quebradiços tentando investigar as chances de estarmos nesse quarto, aqui, hoje. Mas ainda bem que não sou um matemático. Observo suas curvas sob o lençol e elas clamam por minha mão, mas me contenho. Como chegamos a esse quarto mesmo? Estávamos em um bar poucas horas atrás, nos encontramos com seu irmão, que por sua vez se encontrou com os amigos dele, e por sua vez resolvemos nos juntar todos e vir pra casa de um dos amigos, agora eles conversam algo na sala com suas cervejas quentes nas mãos. Não sei o nome da rua, muito menos do prédio, não lembro o andar, mas vendo através da escuridão da janela, devemos estar no quarto ou quinto andar. É bom estar em um lugar desconhecido.

O lençol sobe e desce, como se fosse ele mesmo respirando, você tem o cabelo escuro e chanel, batom vermelho, os cílios são o que eu mais gosto, alongados. Quando nos conhecemos, nos encontramos em uma cafeteria logo depois do match. Você disse gostar de olhares melancólicos, eu perguntei: “eu tenho olhar melancólico?”. Você disse que sim. Até que você disse a fatídica frase: “Eu tenho um namorado”. É sempre assim, tem sempre um namorado ou um companheiro no meio do caminho, no meio do caminho tinha um namorado. Tinha um namorado no meio do caminho. Fingi interesse mas no fundo lamentei. Por que você tinha que mencionar isso? Mas ainda assim continuamos conversando, porque você era uma daquelas pessoas por quem os obsessivos ficam obcecados, pobres de nós. Você disse que era uma relação aberta, eu pensei, será que você não poderia fechar, por favor? E disse que era sensual flertar com outras pessoas. Oh céus! Cada vez que você abria a boca era como se eu fosse mergulhando cada vez mais em você, em outras ocasiões eu largaria tudo ao ouvir “tenho um namorado”, mas não dessa vez. Pro diabo esse tal namorado! Se é uma relação aberta, melhor para mim! Eu, um pobre diabo que não tem nem uma relação pra chamar de sua.

Agora eu observo uma jovem tradutora e escritora deitada ao meu lado, as escritoras sempre me atraíram, os escritores também. Para mim, quem domina a linguagem domina tudo. Li em algum lugar que ou você domina a linguagem ou você é dominado por ela. Por isso me atraio pelos letrados, quero ser dominado por eles. O que faz seu namorado agora, será que está com outra garota? Por algum motivo sinto como nessa noite, ao menos por uma noite, eu venci sobre ele. Agora talvez ele durma sozinho, pensando em você, arrependido por ter topado uma relação aberta. No fundo é isso? uma vingança por alguém que eu nem ao menos conheço, nunca vi a cara. Se ao menos eu pudesse me livrar dele, mas como? Vejo seu rosto sereno, a luz da noite invadindo o quarto, penso que é uma ótima hora pra acender um cigarro. Puxo um maço do bolso, retiro um cigarro, puxo o isqueiro do outro bolso, arrasto uma lata de cerveja que servirá de cinzeiro, e acendo o cigarro. A fumaça começa a subir em um fio e se direciona para a janela, como se soubesse o caminho, e eu quase me distraio por um minuto. Essa é a hora que minha cabeça funciona a todo vapor, uma da manhã em diante. A verdade é que sempre fui um vagabundo, tenho o espírito vagabundo. Durmo tarde e acordo tarde, gosto do ócio. Você é o contrário, trabalha nas suas traduções como uma condenada, e por isso dorme agora o sono dos justos.

Justo, é o que esse quarto é, se parece com o cubículo do Raskolnikóv, as paredes me sufocam, como meus pais me sufocam. Estamos deitados em um colchão sem box, direto no chão. As paredes parecem se comprimir mais, o sono é como uma morte temporária, por isso os depressivos dormem. E agora seu namorado me consome o pensamento. Matar. Seria uma boa opção. Matá-lo. É isso? Matar. Não. Não gosto de matar nem os insetos. Tenho pena das baratas mortas, elas não tem culpa. Tenho pena das formigas que caem das beiras da privada e eu sou obrigado a dar descarga. Elas não tem culpa. Seu namorado também não tem culpa. A culpada é você que quis uma relação aberta. Matá-la? Também não. Estou perdendo o ar, preciso sair. Não aguento mais esse sufoco, esse inferno. Me levanto enquanto você continua imóvel. Vejo a janela, vejo a cidade, prédios recortados um sobre o outro, como uma colagem na noite fria. Poderia pular? Também não. Sou obsessivo demais pra perder o controle. O problema do neurótico é que ele nunca pode ser um psicótico, alguém disse isso. Agora de pé a olho de novo, agora pela última vez. Manda um abraço pra ele, digo baixinho. Dou um beijo em sua testa. Pego meu celular e bloqueio seu número. Não vai ser dessa vez digo pra mim mesmo. Já sei pra onde tudo isso vai. Não dessa vez, repito como uma forma de lamento: não dessa vez.

Saio do quarto, passo pela sala onde pessoas estão conversando e sequer me notam, uma rodinha em cima de um tapete ornamentado com latinhas espalhadas. Não conheço ninguém. Pego o elevador, aperto o térreo, cumprimento o porteiro, saio na rua. Não sei onde estou.

praticamente um fantasma. gumopolis.tumblr.com